
Não depende do contexto.
Na última semana, presidentes de três das maiores universidades americanas foram chamados para responder a perguntas no Congresso americano em relação às ações realizadas até então no combate ao antissemitismo. Na verdade, uma pergunta aparentemente simples: se “chamada pelo genocídio dos judeus” dentro do ambiente da universidade violaria as regras da instituição. E, para a surpresa (ou não), a resposta por todos foi que “depende do contexto”.
Como representantes de três das maiores instituições de ensino dos Estados Unidos, líderes na formação e avanço do conhecimento, representantes do mais alto nível de formação acadêmica e ética não conseguiram responder a uma pergunta aparentemente tão simples?
Apenas 80 anos após o genocídio de judeus no Holocausto, como os fundamentos básicos de ética e moral perderam suas bases e definições?
A resposta está na Parashá da semana.
Na Parashá Miketz (מקץ), Faraó sonha com sete vacas formosas e robustas que foram comidas por sete vacas feias e magras. Logo a seguir, sonha que sete espigas sadias e cheias foram engolidas por sete espigas franzinas. Já na parashá passada, Vaieshev (וישב), Yossef conta a seus irmãos que, em seu sonho, estavam todos amarrando feixes no campo, e o feixe de Yossef se levantou sobre os demais, que se prostraram diante dele. Logo a seguir, relata o sonho em que onze estrelas, o sol e a lua prostravam se diante dele.
Um aspecto em que comentaristas da Torá se atêm é por que nos sonhos de Yossef ele primeiro sonha com os feixes de trigo e depois com as estrelas, enquanto Faraó primeiro sonha com as vacas e depois com as espigas?
A explicação dessa diferença se encontra no Sevivon (סביבון) de Chanucá e as letras em cada um dos seus lados:
נס גדול היה שם
(נ – Alma – נשמה – Neshama)
(ג – Corpo – גוף – Guf)
(ה – Governo – השלטון – Ha’’Shilton)
(ש – Intelecto – שכל – Sechel)
As diferenças entre o império Selêucida (הממלכה הסלאוקית), que se seguiu após a morte de Alexandre, o Grande, mas que manteve a cultura grega, e os judeus, estavam nos princípios fundamentais de vida, escondidos por trás das letras do sevivon.
ג – Corpo
Os selêucidas reconheciam as qualidades do povo judeu e de sua cultura. Assim como eles que cultuavam o corpo e a beleza, também reconheciam a beleza da arquitetura do Beit HaMikdash.
ה – Governo
Assim como a busca de um governo organizado que mais tarde daria origem às bases da democracia, também reconheciam o estabelecimento de leis da Halachá dentro do povo judeu como uma parte de uma cultura desenvolvida
ש – Intelecto
Assim como eles desenvolveram a filosofia e bases e princípios da física moderna, também reconheciam a sabedoria da Torá que, segundo os gregos, desenvolvia ideias filosóficas inovadoras.
נ – Alma
E assim como os gregos desenvolveram o interesse pela música e teatro, também reconheciam a beleza dos cânticos dos leviim.
Porém, a diferença fundamental entre essas duas culturas que levou os selêucidas a impurificar o Beit HaMikdash e proibir o Shabat, brit milá e Rosh Chodesh se encontra no formato do sevivon, que quando girado, gira em torno do centro e aponta para cima, pois todos os aspectos ligados da cultura citados só têm importância quando eles servem Hashem para que ele se revele nos aspectos físicos e materiais do mundo escolhido por ele para que seja sua casa.
Segue uma história contada por Yoav Akrish, emissário Chabad na cidade de Hadera:
Quando dos seus vinte anos de idade, foi passar uma temporada em Crown Heights e nas vésperas de Shabat costumava sair para incentivar outros judeus a fazerem mitzvot.
Conta ele que numa véspera de Sukot encontrou-se com um judeu que vendia etrogim, e como não havia vendido alguns, resolveu dar um etrog, na verdade um etrog muito bonito, na verdade um etrog que custaria em torno de 800 dólares para Yoav, que ficou entusiasmado com a beleza do etrog.
Não somente ele, mas durante toda a festa, todos que utilizavam suas 4 espécies para a bênção do lulav não conseguiam passar despercebido a beleza do etrog.
Próximo do fim da festa, Yoav encontrou-se com um judeu. Rapidamente Yoav prontificou-se para que ele abençoasse sobre as espécies e, claro, o judeu não deixou de admirar a beleza do etrog. Eis então que Yoav lhe fez a proposta: “Vi como ficou fascinado com a beleza do etrog, por isso vou lhe dar a chance de comprar um etrog de 800 dólares pela metade do preço, apenas 400 dólares”. O judeu achou que o jovem estava brincando, mas mesmo assim retrucou: “O que vou fazer com um etrog agora?”, como assim, perguntou surpreso Yoav: “Você não achou o etrog lindo? Você pode comprar e admirá-lo quanto quiser”. Já no limite da paciência, o judeu falou: “Por que eu iria querer comprar um etrog no último dia de Sukot, não vai servir para nada!”. Foi então que percebendo que chegou onde queria que Yoav explicou: “Você está entendendo? A beleza do etrog só existe quando ele é um recipiente de Bracha e Kedusha!”.
Agora podemos entender a diferença na ordem dos sonhos de Yossef e do Faraó.
Yossef sonha primeiro com um feixe de espigas que representam o trabalho de cada judeu em refinar o mundo através das mitzvot e com isso revelar a unicidade de Hashem no mundo. Assim, o judeu também se eleva e o sonho contém os elementos das estrelas, do sol e da lua.
Já o Faraó sonha primeiro com as vacas e depois com as espigas, mostrando a decadência de quando o corpo, a alma, a governança e o intelectual não servem seu propósito, e o sonho com elemento do reino animal é seguido pelo sonho com elementos do reino vegetal, abaixo dele.
Quando o desenvolvimento das ciências, das artes e da ética não servem o propósito para o qual foi desenvolvido, que é revelar a presença de Hashem nesse mundo físico material, ele está destinado à decadência, a complacências por interesses de um indivíduo, de um grupo de pessoas ou até mesmo de um país, até perder sua essência.
No momento em que se perde a referência divina e passamos a olhar para baixo, como os egípcios que achavam que dependiam do Nilo como fonte de fartura, então tudo “depende do contexto”
… só que não!

