Resiliência : Navegando pelos Obstáculos

Certa vez, o grande erudito Rabi Yehoshua, filho de Chananya (Século I, Israel), estava viajando. Durante a viagem, deparou-se com uma bifurcação. Logo, o Rabi Yehoshua perguntou a uma criança que se encontrava lá qual dos caminhos o levaria até a cidade. A criança então respondeu-lhe que existiam dois caminhos: Um “longo-curto” e outro “curto-longo”.

Sem entender completamente a diferença, Rabi Yehoshua escolheu o caminho “curto-longo”. Depois de alguns minutos de caminhada, ele se deparou com campos de espinhos e obstáculos que o impediam de prosseguir e entrar na cidade. Rabi Yehoshua voltou-se para a criança e indagou:

“Você não disse que este caminho era curto? Entretanto, para entrar na cidade, eu teria que contornar os campos e obstáculos, tornando assim essa rota difícil e exaustiva!”

A criança sabiamente respondeu-lhe: “Realmente, eu lhe disse que era um caminho curto, mas deixei claro que seria longo também! Ele aparenta ser curto no início, porém, a entrada na cidade é difícil e tem obstáculos. Portanto, o acesso à cidade torna-se complicado e longo.

“Mas no segundo caminho, eu te disse que seria ‘longo-curto’. De início, será longo e mais demorado, entretanto, você chegará diante das portas da cidade e entrará sem dificuldades!”

Depois de ouvir essa resposta, Rabi Yehoshua agradeceu à criança e confessou que foi uma das poucas vezes que uma pessoa ganhou dele em um argumento e com certeza uma das maiores lições que recebeu em sua vida!

Essa história carrega um profundo ensinamento para nós em todas as áreas de nossas vidas. Muitas vezes encontramos caminhos curtos e soluções rápidas para nossos problemas, porém, esses são caminhos que nos levam a resultados superficiais. Seria como curativos para feridas profundas. São processos que parecem curtos, mas no decorrer do tempo, torna-se evidente que estão longe de nos levar aos nossos objetivos.

No entanto, existe um caminho contrastante ao primeiro; o caminho “longo-curto”. Um caminho trilhado com suor, dedicação e muito esforço. Aquele que, de início, parece ser uma longa e desafiadora caminhada, mas no final os resultados são certeiros e concretos.

Suponha um casal que está enfrentando problemas em seu relacionamento. Eles têm a opção de adotar um caminho curto, como evitar conversas difíceis, não abordar seus problemas e simplesmente fingir que está tudo bem. Isso pode proporcionar uma sensação temporária de alívio, mas, ao longo do tempo, os problemas não resolvidos se acumularão e podem levar a um relacionamento superficial e insatisfatório.

Por outro lado, o casal também pode escolher o caminho “longo-curto”. Isso envolve dedicar tempo e esforço para a comunicação aberta e honesta, buscar aconselhamento de relacionamento quando necessário e trabalhar juntos para resolver seus problemas. Embora esse caminho possa ser desafiador no início, no final, eles podem construir um relacionamento mais profundo e saudável, baseado na compreensão mútua e na resolução de conflitos.

Assim é também no ramo da educação, da saúde física e mental e em todas as dimensões e âmbitos da vida. Os caminhos percorridos com esforço revelam resultados autênticos e reais, porém caminhos alternativos, rápidos e sem investimento, dificilmente trarão resultados duradouros.

Na Parashat Nitzavim, Moshe diz ao povo judeu para se manterem fiéis ao legado da Torá e do Judaísmo, pois mesmo que seja exigido esforço para praticá-la, a Torá sempre traz soluções concretas para uma vida alegre e vigorosa, tanto para um casamento saudável como para o sucesso financeiro e todas as outras áreas da vida.

A Torah oferece um conjunto de valores morais e éticos que proporcionam orientação sólida para tomar decisões na vida diária. Isso ajuda a construir relacionamentos saudáveis, agir com integridade e enfrentar desafios com sabedoria.

E apesar do esforço necessário para observar a Torah, os benefícios são substanciais e duradouros. É como escolher o caminho “longo-curto” na vida espiritual, investindo tempo e energia para colher os frutos de uma vida que é profundamente enriquecida por valores, significado e conexão com algo maior do que nós mesmos.

O Shabat é um dos princípios fundamentais da observância da Torah no judaísmo. É o dia de descanso semanal, que começa ao entardecer de sexta-feira e termina ao anoitecer de sábado. Para muitos judeus, observar o Shabat pode parecer inicialmente desafiador e requerer um esforço significativo. No entanto, os benefícios espirituais e pessoais que ele traz tornam-no um exemplo claro do caminho “longo-curto” na vida espiritual.

A preparação para o Shabat pode envolver planejamento antecipado, acender velas, fazer refeições especiais e evitar atividades seculares, como trabalhar ou usar eletrônicos. Isso requer esforço e comprometimento inicial.

À medida que a família se reúne para celebrar o Shabat, ocorrem benefícios profundos. O Shabat oferece um tempo de pausa do ritmo frenético da vida cotidiana, permitindo a reflexão, conexão com a família, com a comunidade e com a espiritualidade. Ele proporciona um ambiente propício para orações, estudos e meditação.

O Shabat é uma oportunidade de construir relacionamentos significativos com amigos e familiares. Compartilhar refeições, histórias e tradições fortalece os laços familiares e comunitários.

A observância do Shabat oferece descanso físico e mental. Isso ajuda as pessoas a recarregar suas energias, reduzir o estresse e revitalizar-se para enfrentar a próxima semana com uma perspectiva renovada.

O Shabat é um momento dedicado à conexão espiritual, permitindo que as pessoas se afastem das distrações do mundo moderno e se concentrem em sua relação com o divino. Isso pode trazer uma sensação de paz interior, propósito e tranquilidade.

Assim, a observância do Shabat, embora exija esforço inicial, é vista como um caminho “longo-curto” na vida espiritual judaica. Os benefícios espirituais e pessoais que ele proporciona, como aprofundamento na fé, conexão com a comunidade e renovação pessoal, tornam a jornada de observância valiosa e recompensadora a longo prazo. É um exemplo claro de como escolher o caminho “longo” pode levar a resultados significativos e duradouros na vida espiritual.

Quando escolhemos caminhos alternativos, curtos e rápidos que não exigem esforço algum, acabamos trazendo frustração e desapontamento por não atingirmos os resultados que desejávamos. 

Portanto, a história do Rabi Yehoshua, a analogia com o caminho “longo-curto”  nos lembraque, em muitos aspectos da vida, o esforço dedicado e a jornada mais longa muitas vezes conduzem a resultados mais profundos, duradouros e significativos. 

Como disse David, o salmista no Tehilim:

“Serão aqueles que aram e semeiam com esforço e suor que colherão os frutos com alegria e regozijo!”

Shabat Shalom

Mensagem do Rabino Yossi Azulay

Este artigo foi escrito para a elevação da alma de Simcha Bat Esther Z”l
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