Emergindo das cinzas

07/10 Simcha Torah

Desde os horrores do Holocausto, o povo judeu não havia vivenciado uma tragédia tão devastadora e cruel como aquela que se abateu sobre Israel em 7/10/2023.

Na celebração de Simchat Torah, o ápice da alegria no calendário judaico, onde dançamos em harmonia com a Torá e celebramos as Grandes Festas, fomos surpreendidos pelo grupo terrorista Hamas, transformando um dia festivo em um dia sangrento e doloroso para o povo judeu.

Mais de 1400 vidas foram ceifadas, 240 pessoas foram sequestrados, e kibutzim inteiros foram arrasados.

As notícias chegavam aos poucos, desenhando uma nova realidade diante de nossos olhos. Foi somente quando o quadro se completou que compreendemos a extensão da tragédia.

O impacto foi chocante, a tristeza, avassaladora. O medo permeou a nação, e, com uma alegria forçada, concluímos as Hakafot de Simcha Torah.

Passaram-se quase dois meses, e ainda nos encontramos envolvidos nessa guerra não provocada por nós. Seguimos lutando heroicamente pela nossa sobrevivência e pelo nosso direito sobre a Terra de Israel, dádiva de Deus entregue ao povo judeu. Continuamos a buscar luz e esperança para dissipar a escuridão que nos envolve.

Resiliência do povo judeu

Somos um povo que carrega consigo inúmeros traumas, desde os babilônios e gregos, passando pelos romanos, cruzadas, expulsão da Espanha e Inquisição. No entanto, mantemos a sensibilidade à dor e repudiamos qualquer forma de crueldade. Não nos tornamos apáticos diante do sofrimento. Diante da dor, não nos rendemos à apatia, mas, pelo contrário, buscamos superá-la e lutar pelo seu fim.

Persistimos em nossa fragilidade, vulneráveis à dor. Identificamo-nos com aqueles que sofrem e compartilhamos de sua dor. O fato de termos enfrentado os piores aspectos da natureza humana em nossa história não nos quebrou; pelo contrário, fortaleceu nossa paixão pela vida.

Entretanto, qual é o segredo do povo judeu? Como mantivemos a sensibilidade ao bem, em momentos tão difíceis? Como é possível pedir a um ser humano sensível e inocente que supere tamanha crueldade e sofrimento?

Cantando nos momentos de desafio

Na parashá Vayetze, somos conduzidos à história da fuga de Yaakov, o patriarca do povo judeu, escapando de seu irmão Esav, cujo desejo era a morte de Yaakov.

Yaakov empreende uma jornada em direção a Charan, uma cidade habitada por idolatras e permeada por pessoas corruptas e imorais. Lá, ele se estabelece sob o teto de seu tio Lavan, um homem que domina a arte da maldade, submetendo Yaakov a sofrimentos com trabalho árduo e enganos constantes.

O Midrash acrescenta uma camada de profundidade à narrativa ao relatar que, durante os 20 anos que Yaakov passou com Lavan, ele recitava constantemente os 15 Shir Hamaalot dos Salmos. Dessa recitação, ele extraiu inspiração e força para manter-se firme, mesmo nos momentos mais desafiadores.

Esses versículos dos Salmos frequentemente mencionam a ajuda divina em momentos de adversidade. No entanto, o destaque é dado ao fato de serem chamados de “Shir”, ou seja, música.

Como foi possível cantar e alegrar-se em meio a momentos tão difíceis?

A resposta reside na visão de Yaakov. Ele conseguia enxergar a luz por trás da escuridão, discernindo um futuro de prosperidade material e espiritual mesmo nas experiências mais terríveis de sua vida. Yaakov compreendia que tudo tem um propósito, e cada descida na vida é seguida por uma grande ascensão.

Ele conseguia vislumbrar o nascimento de uma nação emergindo das cinzas e do sofrimento. Foi essa perspectiva que o levou a encontrar alegria mesmo em meio às adversidades, pois sabia que, no final, havia um propósito maior guiando seus passos.

“Meain Yavo Ezri?” – “De onde virá a minha salvação?” – suplica o salmista.

No entanto, a resposta já está contida na própria pergunta. “Esa Enai El Hearim” – “Levantarei meus olhos para além das montanhas” – e apenas então, de D’us, o “Ain’’ (literalmente ‘’Nada’’, porém na Cabala este termo é usado para falar de D’us, o Ser inalcançado e incompreensível) ‘’ Yavo Ezri” – “virá a minha salvação”.

Essas palavras nos convidam a refletir sobre a importância de olhar além da dor e do sofrimento. Ao erguer nossos olhos para horizontes mais amplos, reconhecemos que, após uma queda profunda, segue-se uma ascensão grandiosa.

Yakov se tornou um homem próspero nas terras de Lavan; ele superou todos os desafios e construiu uma bela família que deu início ao povo judeu e construiu um enorme patrimônio. ‘’Vayfrotz Haish Meod Meod’’.

Ele nos deixou um legado de valor incalculável. Saber enxergar além do sofrimento e da dor. Saber que após toda tragédia um novo futuro está sendo construído.

Rabi Akiva e sua visão

O Talmud relata uma história fascinante sobre Rabi Akiva e seus amigos. Certa vez, Rabi Akiva estava caminhando junto aos seus amigos, e eles passaram pelas ruínas do Beit Hamikdash, e todos começaram a chorar de tristeza, com exceção a Rabi Akiva, que estava sorrindo e alegre.

Logo indagaram-no por que ele estava alegre. Ele respondeu indagando eles: Por que vocês choram?

Após eles responderem que o choro vinha por consequência da destruição do Beit Hamikdash Rabi Akiva respondeu: Este é o mesmo motivo que me faz feliz! Se a profecia da destruição foi realizada, isso significa que as profecias da reconstrução do Templo também aconteceram! E é por isso que estou feliz, pois agora consigo enxergar o bem que está por vir!

Interessante notar que Akiva e Yakov no hebraico têm as mesmas letras em sua raiz עקיבא – יעקב, e, de acordo com a cabala, suas almas estavam interligadas.

Talvez esse seja o segredo que o povo judeu carregou durante toda sua história, e foi essa visão que nos tornou um povo eterno e um povo que sempre soube levantar depois da queda e reviver das cinzas!

Apesar da tragédia, é notória a revolução dentro do povo judeu nos últimos dias. Um novo espírito se formou, e uma energia jamais vista se tornou nossa nova realidade. Isso, sem dúvida, é apenas o início de uma nova era, onde em breve teremos o mérito de presenciar a vinda de Mashiach e a verdadeira e completa redenção!

Este artigo foi escrito para a elevação da alma de Simcha Bat Esther Z”l

 

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